5. COMPORTAMENTO 6.5.13

1. REVISTEIRO POR VOCAO
2. A ESCOLA DE 2014, 2016 E 2018
3. "SE TIVER DE ABRIR MINHA CABEA DEZ VEZES, VOU ABRIR"
4. A SENHORA DOS ESPRITOS
5. UM JEITO DIFERENTE DE TORCER

1. REVISTEIRO POR VOCAO 
A trajetria de Roberto Civita, o empresrio que trocou a cincia pelas revistas e comandou um dos maiores grupos de comunicao do Pas 

A nica coisa que eu sei mesmo fazer na vida  ser editor. Assim Roberto Civita costumava resumir a prpria jornada, de 76 anos, encerrada s 21 horas e 41 minutos do domingo 26. Trata-se de um resumo preciso. Presidente do Conselho de Administrao do grupo Abril desde 1990, Roberto Civita, ou simplesmente RC, como gostava de ser tratado pelos amigos, foi um dos principais responsveis pela cultura do consumo de revistas no Brasil. Sob sua batuta, inspirado pela produo editorial dos Estados Unidos da dcada de 1960, a Editora Abril lanou Quatro Rodas, Claudia, Exame, Realidade e Veja, entre outros ttulos, e transformou-se em um dos maiores grupos brasileiros do setor de comunicao. 

 Nascido em Milo, na Itlia, em 1936, Roberto Civita morou nos Estados Unidos at os 12 anos, mas passou a adolescncia no Brasil, onde despertou a vocao que veio a ser a pauta de sua vida. No curso secundrio, foi o editor responsvel pelo jornalzinho da Graded, escola americana localizada na zona sul de So Paulo. Apesar da dedicao ao jornalzinho, o boletim do jovem Roberto desenhava o perfil de um garoto direcionado para as cincias exatas, principalmente pelo bom desempenho nas provas de matemtica. Com isso, conquistou uma bolsa para estudar fsica nuclear no Texas. Aceitou o desafio, mas a vocao voltou a falar mais alto e ele acabou trabalhando no jornal da universidade. Deixou o curso de fsica e mergulhou no mundo das cincias humanas. Simultaneamente, cursou economia e jornalismo na Warthon Business Scholl, na Pensilvnia, e posteriormente fez ps-graduao em sociologia. Poderia ter sido um cientista, mas no seria nem muito bom nem muito feliz, dizia Roberto Civita quando colocado diante do prprio currculo.

Roberto Civita 1936-2013 - Empresrio que entre outros ttulos lanou Quatro Rodas e Veja dizia que a nica coisa que sabia fazer era editar revistas

Enquanto se ocupava da formao acadmica nos Estados Unidos, seu pai, Victor, no Brasil, fundava a Editora Abril, que trazia aos brasileiros personagens da Disney, como o Pato Donald, e editava fotonovelas. Era o incio dos anos 1950 e, em Nova York, Roberto Civita, ao lado de outros quatro jovens de diversas partes do mundo, foi selecionado para um estgio na revista Time, que vivia o auge de seu prestgio. Terminado o perodo de estgio, chegou a ser convidado para permanecer na publicao, mas resolveu aceitar a proposta do pai e voltou para o Brasil. Trazia na bagagem alguns objetivos. O principal deles era criar uma revista semanal de informaes, desejo que s conseguiu realizar em 1968 quando convenceu o pai a lanar Veja. A revista chegou s bancas trs meses antes do AI-5, o Ato Institucional que transformou um governo autoritrio em efetiva ditadura militar e arremessou a publicao recm-nascida ao controle da censura. Roberto Civita teve o mrito de ser perseverante nos momentos adversos e, assim, contribuiu para a consolidao da liberdade de expresso, lembra Domingo Alzugaray, fundador, editor e diretor responsvel da Editora Trs. Ex-diretor da Abril, Alzugaray foi um dos quatro signatrios da fundao de Veja, ao lado de Victor Civita, do prprio Roberto e do jornalista Mino Carta.

A DIREO DA ABRIL EM 1970 - Victor Civita (em primeiro plano)  frente de Roberto Civita, Richard Civita, Edgard Farias,  Giordano Rossi, Mino Carta e Luiz Carta (da dir. para a esq).  direita, Domingo Alzugaray (com gravata listrada e terno cinza) e, ao centro, com gravata clara, Arthur Civita

Para que o sonho editorial do rapaz que trocou a exatido da fsica nuclear pela pluralidade do jornalismo se concretizasse, Roberto Civita enfrentou resistncias na empresa comandada pelo pai, mas foi adiante. Com o Pas vivendo um perodo de tenso permanente, Veja acumulou inicialmente prejuzos. Na poca, um relatrio da diretoria da empresa foi incisivo: Ou a Abril acaba com a Veja ou a Veja acabar com a Abril, dizia o texto assinado por vice-presidentes. Estavam errados. Roberto Civita seguiu com seu projeto e transformou Veja em um sucesso indiscutvel. Em 1982, Victor Civita determinou que Richard, o filho mais novo, ficasse com o controle administrativo da empresa e que Roberto cuidaria da gesto editorial. Roberto Civita foi um cone da histria da mdia brasileira e sempre ser lembrado como o editor que enraizou no Brasil uma forte cultura de consumo de revistas, assim como o empresrio que implantou um modelo moderno de produo e comercializao dessa indstria, diz o presidente-executivo da Editora Trs, Caco Alzugaray. Apesar da difcil concorrncia que sempre enfrentamos desse grande e importante grupo de comunicao, sempre respeitamos e admiramos Roberto Civita. Em 2002, coube a Roberto Civita indicar o nome de Caco para a presidncia da Associao Nacional dos Editores de Revistas.

Somente em 1990, com a morte de Victor,  que, na condio de presidente do Conselho Diretor da Abril, Roberto passaria a responder tambm pela gesto administrativa do grupo. Vieram, ento, alguns projetos problemticos, como o investimento simultneo em tev a cabo, por satlite e no sistema de micro-ondas. Algum deveria ter me alertado e dito: voc enlouqueceu? No pode fazer isso. Ningum no mundo conseguiu fazer essas trs coisas ao mesmo tempo, afirmou Roberto em agosto do ano passado. As dvidas contradas em tais projetos levaram Roberto a se desfazer de parte dos empreendimentos. Em 1999 a empresa deixou a DirectTV e, em 2012, desfez-se da TVA. Apesar dos sobressaltos, a insistncia de Roberto despertou admirao. Roberto nunca se distanciou de sua maior paixo: editar, afirma Frederic Kachar, atual presidente da Associao Nacional de Editores de Revistas.

 Ao contrrio do pai, tido como extraordinrio relaes pblicas, Roberto era discreto e dono de um perfil mais tcnico. Implantou na empresa uma viso profissional de gesto editorial, que dizia traduzir os moldes americanos. Sob o comando de Roberto Civita, a Editora Abril transformou-se em referncia, afirmou a presidenta Dilma Rousseff, em nota emitida na segunda-feira 27. O empresrio e editor faleceu vtima de falncia mltipla de rgos, depois de passar os ltimos trs meses internado no Hospital Srio-Libans, em So Paulo, onde se submetera a uma cirurgia para a implantao de um stent abdominal. Desde ento, a empresa vem sendo conduzida por Giancarlo Civita, o mais velho de seus trs filhos.

Alm de capitanear a poltica editorial da empresa criada pelo pai, Roberto Civita se destacou pelo compromisso em prol da educao, seja por intermdio das publicaes voltadas especificamente para o tema, seja atravs da Fundao Victor Civita, que entre suas atividades estimula a formao e a capacitao de professores. Nosso pai mostrou que uma nao de verdade no nasce ao acaso, precisa ser construda. E ele tinha a certeza de que para isso  preciso educao e liberdade de expresso. Como filhos, reiteramos o compromisso j feito a ele de perseverar, com essas duas ferramentas, na luta pelo fortalecimento das instituies democrticas do Pas, disse Giancarlo durante o velrio que reuniu cerca de duas mil pessoas no Crematrio Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, na Grande So Paulo. Provavelmente, caber a Giancarlo a misso de dar prosseguimento ao trabalho de Roberto Civita. Ningum  insubstituvel. Mas dar continuidade ao trabalho de Victor e de Roberto no ser uma tarefa fcil, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 


2. A ESCOLA DE 2014, 2016 E 2018
Jogos, contedos colaborativos e aplicativos para celulares esto revolucionando as salas de aula no Brasil, onde 72% dos estudantes j tm acesso  internet. Saiba como a tecnologia vai transformar o modo de ensinar e aprender nos prximos anos
por Rachel Costa

TRANSFORMAO
 O colgio Santa Izildinha, em So Paulo, foi um dos primeiros do Pas a adotar o Sistema UNO, que substitui livros e cadernos por tablets. A professora  Cleonice Duarte j percebe a melhora nos resultados de seus alunos

O acesso a computadores e celulares no ambiente escolar brasileiro experimentou uma vertiginosa ampliao na ltima dcada. Em 2005, apenas 35,7% dos estudantes tinham acesso  internet, segundo dados do IBGE. Hoje, o ndice  de 72,6%. Essa invaso das tecnologias da informao e da comunicao est revolucionando a maneira de ensinar e aprender. Jogos, contedos colaborativos e redes sociais acadmicas comeam a entrar nas salas de aula. Nos prximos cinco anos, a transformao deve se disseminar a tal ponto que o giz e o quadro negro parecero peas de museu. Testes por SMS, softwares sofisticados, em especial para tablets e smartphones, e aplicativos capazes de organizar as informaes de acordo com as caractersticas do estudante sero a regra nas escolas brasileiras.

A REALIDADE DA TECNOLOGIA NA EDUCAO 

 claro que apenas equipamentos e material didtico atraente no garantem a qualidade no ensino. A mudana definitiva passa por transformaes profundas no modo de agir, pensar e gerir a educao e as escolas, diz Maria Teresa Lugo, coordenadora de projetos do Instituto Internacional de Planejamento da Educao, rgo ligado  Unesco. Uma nova tendncia  a elaborao conjunta de conhecimento. A internet, alm de facilitar o acesso a contedos, simplifica a troca e a produo de informao e saber. As pessoas so naturalmente colaborativas e exerccios pedaggicos que promovem o aprendizado dessa forma so comprovadamente benficos, avalia Adeline Meira, pesquisadora no Centro de Excelncia para o Ensino e Aprendizado da Universidade do Texas. A ajuda mtua vale tanto para o aluno quanto para os professores. No saberia dar aula se tivesse que escrever tudo sozinha, admite a professora de tecnologia educacional Vernica Martins Carnata. Onde ela leciona, no Colgio Dante Alighieri, em So Paulo, existe uma rede para que os docentes possam compartilhar seus planos de ensino, mostrando aos colegas o que deu certo na sala de aula.  como se eu pegasse um livro de receitas que s tem frmulas testadas por conhecidos, diz Carnata. O mundo hoje  colaborativo, e ns temos de nos adaptar.

Outro modelo interessante para aproximar a comunidade escolar so as redes sociais acadmicas. Um exemplo  a Koin, que possui mais de 12 mil usurios e interliga todas as unidades de educao do Sistema S (como Senai e Senac). A rede serve de mural virtual para a comunicao entre a direo e os estudantes, de ponto de encontro entre alunos de um mesmo curso e para a realizao de tarefas em conjunto. s vezes temos uma dvida e no sabemos resolver entre os conhecidos, mas, se colocamos na Koin, fica mais fcil, porque um aluno do mesmo curso que o nosso, mas de outro Estado, pode saber e nos ajudar, diz Thas Dias, 19 anos, aluna do Senai de So Gonalo, no Rio de Janeiro.

 Muitas iniciativas tm surgido ao redor do mundo com o desafio de testar essas fronteiras entre tecnologia e pedagogia. Uma delas, que desembarcou no incio do ano no Pas,  o Sistema UNO, projeto educativo do grupo espanhol Santillana. Aps atingir a marca de 420 escolas apenas no Mxico e dezenas de outras na Argentina, no Equador, na Colmbia, em El Salvador e na Guatemala, o sistema mira agora no maior mercado de educao da Amrica Latina: o Brasil. As mudanas na rotina j so evidentes nos colgios que o adotaram: em vez de cadernos e livros, os alunos passam a carregar tablets e o currculo passou a ser bilngue, com grande nfase no ensino do ingls. O interesse dos estudantes  muito maior com os novos recursos disponveis, conta a professora Cleonice Rodrigues de Sousa Duarte, do colgio Santa Izildinha, em So Paulo, um dos pioneiros na adoo do Sistema UNO no Brasil.

As novas tecnologias tambm modificam a relao entre mestre e aluno, dando cada vez mais protagonismo aos estudantes. O professor que sabe tudo no existe mais, diz a coordenadora do curso de programao de jogos do Ncleo de Estudos Avanados em Educao (Nave), do Rio de Janeiro, rika Pessoa. No colgio tcnico, jovens entre 15 e 17 anos so postos diante do desafio de transformar em games algumas das matrias estudadas no ensino mdio. O que usei no jogo, nunca mais esqueci, conta Carolina Rosa, 17 anos, que desenvolveu um game sobre reciclagem de materiais, contedo que viu nas aulas de biologia e agora ser usado por outros estudantes da rede pblica do Rio. Um estudo da Universidade Estadual de So Paulo (Unesp) mostra que o uso desse tipo de recurso melhorou em mais de 30% o desempenho dos alunos nas aulas de fsica e matemtica. Quando analisados aqueles estudantes com pior rendimento, a diferena na nota foi ainda maior  o avano foi de mais de 50%. Percebemos uma maior motivao entre os alunos porque eles conseguem ver que aquilo faz mais parte do cotidiano.  mais fcil falar de anlise combinatria se ele v isso em um game, estampado em combinaes de roupas possveis para uma bonequinha, exemplifica o professor Slvio Fiscarelli, um dos responsveis pelo estudo. 

 Os resultados positivos tm motivado cada vez mais o desenvolvimento de ferramentas e de contedos para as salas de aula. Uma das reas que tm estado de olho nas oportunidades so as start-ups, pequenas empresas de tecnologia responsveis por desenvolver grande parte das inovaes que chegam todos os dias ao mercado. Um bom exemplo  a Geekie, uma plataforma para a personalizao de contedo criada por dois brasileiros que se conheceram nos Estados Unidos. O foco atual est na preparao dos alunos para o Enem, mas o objetivo dos criadores , em um futuro prximo, ampliar os usos da plataforma no sistema de ensino. Usamos uma tecnologia parecida com a usada pelo Google, pelo Faceebok e pela Amazon, s que dirigida  educao, explica Claudio Sassaki, um dos fundadores da Geekie. Conforme a pessoa interage com a plataforma, vai descobrindo qual  o seu perfil.

Assim, toda vez que um aluno responde a uma das questes do simulado, o sistema define, de acordo com os erros e acertos do usurio, quais so as reas em que ele tem bom desempenho e quais precisam de um reforo. O diagnstico pode ser usado tanto pelo prprio estudante quanto pelo professor, que tem acesso aos resultados individuais e a um panorama geral da classe. Giovana Batista, ex-aluna do Colgio Bandeirantes, em So Paulo, aproveitou as dicas do programa para ajustar seus estudos e garantir uma vaga na universidade. O relatrio me mostrou que eu precisava estudar mais geometria. Dei mais ateno  matria e isso foi timo, porque caram vrias questes no vestibular, conta. Queremos agora ampliar o uso do software no apenas para os simulados, mas para exerccios em geral. Assim,  medida que o aluno for resolvendo as questes referentes ao que tem de estudar, o programa ser capaz de identificar seus pontos fracos e sugerir a que e como se dedicar, diz Eduardo Tambor, diretor de planejamento do Colgio Bandeirantes.

E h ainda muito mais por vir. Em um experimento da Universidade de Durham, no Reino Unido, as carteiras tradicionais foram substitudas por outras digitais, com telas sensveis ao toque. Elas tm a vantagem de reunir os estudantes ao seu redor para visualizar e trabalhar sobre um mesmo contedo. Como no h o obstculo dos monitores, a capacidade de interao fica muito maior, disse  ISTO a pesquisadora Emma Mercier, uma das realizadoras do projeto. Testadas por cerca de 100 alunos, as mesas digitais foram capazes de aumentar razoavelmente o rendimento dos estudantes quando comparados aos seus colegas que realizaram atividades semelhantes no cenrio tradicional, com lpis e cadernos. No ambiente digital, a ampliao do repertrio de expresses numricas foi de 43%, contra 16% no grupo exposto  sala de aula convencional. A tecnologia permite fazer coisas que so impossveis sem ela, como realizar simulaes e compartilhar contedos produzidos pelo estudante em uma tela vista por todos, diz Emma.  a revoluo acontecendo em tempo real.


3. "SE TIVER DE ABRIR MINHA CABEA DEZ VEZES, VOU ABRIR"
Oscar Schmidt, um dos maiores dolos do esporte nacional, fala o que mudou em sua vida aps descobrir, dois anos depois de ser operado pela primeira vez, que estava novamente com um tumor no crebro 
Natlia Mestre

EM TRATAMENTO - Um ms aps a cirurgia, o ex-jogador de basquete tenta levar  uma vida normal, apesar da quimioterapia e da radioterapia

A bandeira do Brasil hasteada em uma das janelas da casa em Alphaville, a cerca de 30 km de So Paulo, entrega o jogo logo de cara. Quem abre a porta  o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt, 55 anos, um dos maiores dolos do esporte nacional e dono do recorde mundial de pontos anotados (49.737). Bem-humorado, alto-astral e sem papas na lngua, ele recebeu ISTO na residncia onde mora com a esposa, Cristina, e a filha, a chefe de cozinha Stephanie, de 22 anos. O filho mais velho, Felipe, 27 anos,  cineasta e mora em Salvador. Se no fosse o bon a esconder a cicatriz de orelha a orelha e o cabelo bem ralo, mal daria para notar que o Mo Santa havia passado por uma segunda cirurgia de retirada de tumor cerebral, no dia 30 de abril, e que est fazendo quimioterapia e radioterapia. Na primeira operao, em 2011, os mdicos retiraram um tumor de 7,5 centmetros de comprimento e grau dois  a escala de gravidade desse tipo de tumor vai de um, considerado benigno, a quatro, o mais grave. Em abril, atravs de uma ressonncia magntica de rotina, os mdicos diagnosticaram que o cncer tinha voltado menor, porm mais agressivo, de grau 3. O novo percalo, porm, no desanimou Oscar. Otimista, segue com a vida normal  na ltima tera-feira, deu uma palestra na Fundao Armando lvares Penteado (Faap)  e no v a hora de chegar setembro, quando participar da cerimnia de nomeao ao Hall da Fama do basquete, nos Estados Unidos.

ISTO  Como foi a sua reao quando soube que o tumor havia voltado? 
 Oscar Schmidt  Foi uma merda. Na hora eu s conseguia pensar que no viverei mais at os 80 anos. Mas, agora, olhando para toda a minha vida, eu s posso me sentir satisfeito. Eu tive uma vida linda, consegui praticamente tudo que eu quis, cheguei infinitamente mais longe do que um dia eu sonhei chegar. Se a natureza me colocou esse problema, eu tenho que ser capaz de super-lo. E j estou superando. Se tiver de abrir a minha cabea dez vezes, vou abrir. 

ISTO  Qual  a diferena entre o que voc est vivendo hoje e o que viveu dois anos atrs, quando o tumor foi diagnosticado pela primeira vez?
 Oscar  A gravidade da situao. Hoje eu sei que o meu caso  mais srio e, por isso, eu preciso passar por um tratamento pesado, com sesses de quimioterapia e radioterapia. A radioterapia  mais tranquila. J a quimioterapia  cruel, estou sofrendo com enjoos frequentes.

ISTO  E como a sua famlia est encarando a doena?
 Oscar  Eles esto muito abalados, sabem que eu vou embora antes e isso  muito difcil. Basta tocar no assunto que comeam a chorar, eu que tenho que consol-los. Sei que eles esto passando por maus bocados, mas vo superar. Vamos superar mais esse desafio.

ISTO Voc sentiu medo em algum momento?
 Oscar  Senti muito medo da cirurgia. A operao passada j havia demorado cerca de oito horas e essa levou basicamente o mesmo tempo. Os mdicos precisavam remover todo o tumor e mais um pouco da rea em volta. Eu s pedi que me deixassem a fala e o raciocnio, que so as coisas com as quais eu trabalho e dependo. O resto eu posso viver sem.

ISTO  Voc passou por algum momento de revolta, achou que a doena pudesse ser um tipo de castigo, punio?
 Oscar  Nunca pensei nada disso. Tenho plena conscincia de que  uma questo gentica (o pai, Oswaldo Schmidt, morto h dois meses de infarto, j havia se curado de um linfoma). Sempre tive uma vida regrada. Nunca usei drogas, bebi ou fumei, sempre pratiquei exerccios e fui fiel  minha mulher. Se mesmo assim Deus me deu um cncer na cabea,  porque tenho condies de superar.

ISTO  E como voc se sentiu ao acordar da cirurgia?
 Oscar  Acordei com os mdicos me chamando. Eu tinha at planejado dar um susto neles quando acordasse, ia brincar que no estava conseguindo reconhec-los. Mas na hora nem me lembrei disso. Fiquei muito feliz por estar bem e por ter dado tudo certo. Passei apenas cinco dias no hospital e foram dias timos.

ISTO  A doena deixou voc mais espiritualizado? Fez algum tipo de promessa? 
 Oscar  Sempre fui religioso. Sou catlico, acredito em Deus e tenho f. No cheguei a fazer nenhuma promessa ainda, acho at que vou acabar fazendo, mas s eu vou saber disso. A nica promessa que fiz at hoje foi para a seleo de basquete masculino se classificar para a Olimpada em 1996. Fiquei um ano sem tomar Coca-Cola.

ISTO  A cirurgia deixou alguma sequela? O que mudou na sua vida?
 Oscar  No tenho nenhuma sequela e estou bem fisicamente. Levo a minha vida normal. A nica coisa que realmente mudou  que no guardo mais dinheiro, agora gasto tudo o que ganho. Minhas prioridades mudaram. Quero curtir cada momento, aproveitar a minha vida com as pessoas que gosto, viajar bastante, porque sei que o cncer pode voltar. No sei quanto tempo tenho, mas, o que tiver, quero viver bem. 

ISTO  Como voc consegue manter o alto-astral?
 Oscar  Acho que isso faz parte da minha natureza. Sempre mantenho o bom humor e o otimismo. O esporte me ensinou a estar sempre bem preparado mentalmente.  a mente que precisa dominar o nosso corpo.

ISTO  O que te d fora para seguir em frente?
 Oscar  A minha famlia, as coisas que eu fao. No vejo a hora de ser homenageado no Hall da Fama do basquete.  como se fosse o Prmio Nobel do basquete,  o posto mais alto ao qual algum pode chegar no esporte. Voc consegue imaginar a honra que eu sinto em ser o nico brasileiro homenageado? 

 ISTO  Quando voc pensa no futuro, qual  o seu maior sonho?
 Oscar  Quero ver os meus filhos bem encaminhados na vida. J estou vendo os meus imveis e a minha empresa, deixando tudo certinho para eles, para quando eu no estiver mais aqui. Gostaria de ver os meus netos tambm, mas acho difcil, meus filhos nem casados so. Hoje no me falta mais nada. At um documentrio sobre a minha vida est sendo produzido  meu filho  que est fazendo. S faltou mesmo uma medalha olmpica.


4. A SENHORA DOS ESPRITOS
Como Zibia Gasparetto transformou sua mediunidade num imprio de comunicao, com 41 livros publicados, 16 milhes de exemplares vendidos e presena no rdio, na tev e na internet 
por Joo Loes

A fila j dava voltas no auditrio da livraria de um shopping da zona norte de So Paulo. Eram 20 horas de uma quinta-feira do ms de maio, dia de trnsito complicado na cidade, mas ningum dava sinal de que arredaria os ps antes de conseguir um autgrafo e uma foto com a estrela da noite, a escritora, mdium, lder espiritual e empresria Zibia Gasparetto, 86 anos. Convidada pela rede de lojas, ela havia falado durante 35 minutos para o pblico e agora atendia, um a um, os cerca de 150 fs que aguardavam para conhec-la e ganhar um exemplar assinado do livro S o Amor Consegue, o 41 da carreira da autora, lanado em maro e j com 80 mil cpias vendidas. Qual o seu nome, minha filha?, perguntava Zibia s moas, grande maioria, que chegavam com a obra na mo, para depois confirmar a grafia do sobrenome e colocar uma singela dedicatria: Com carinhoso abrao, alegria e luz, Zibia Gasparetto. Quando o salo esvaziou, perto das 22 horas, seis funcionrias da livraria apareceram, esbaforidas, com suas cpias do romance para garantir o autgrafo. Mesmo cansada e com dor no pulso, fruto de uma tendinite crnica, atendeu sorridente: Claro, meu bem, pode vir, disse. 

 Soberana do romance medinico no Brasil, Zibia Gasparetto escreve livros a partir das mensagens que diz ouvir dos espritos que a acompanham desde os anos 1950. Carinhosa com os fs e dura nos negcios, a octogenria, que j publica h 55 anos e contabiliza 16 milhes de livros vendidos, construiu, ao lado dos filhos e netos, um verdadeiro imprio esprita, com ramificaes no rdio, na internet, na televiso e no mercado de palestras (leia quadro na pg. 76). No ramo editorial, onde tudo comeou,  ela prpria quem comanda a editora e grfica Vida e Conscincia, empresa em franco processo de crescimento. Segundo sua filha e scia, Silvana Gasparetto, 45 anos, a impresso mensal de livros da empresa, que fechou 2012 com 300 mil unidades, j chegou a 500 mil no primeiro semestre de 2013 e deve bater as 650 mil unidades at o comeo de 2014. A terceira mquina que compramos comea a rodar em breve, diz Silvana, da espaosa sala que ocupa no quarto e ltimo andar da sede do grupo, no bairro do Ipiranga, zona sul de So Paulo.

 Poucas coisas do a dimenso do poder dos Gasparetto quanto uma ida  sede da grfica e editora Vida e Conscincia. Quem v o prdio por fora pode fazer pouco do espao, uma construo antiga, com aspecto de fbrica. Mas uma visita ao que h do outro lado do muro, principalmente ao quarto andar, onde fica a diretoria, mostra bem o que 16 milhes de livros vendidos podem comprar. O espao impressiona pela beleza e conforto. Com p-direito de mais de quatro metros, piso de madeira de demolio, detalhes em pastilhas de vidro e mobilirio refinado, ele lembra uma luxuosa cobertura de prdio. Um grande jardim com fonte adornada por belos conjuntos de ladrilhos hidrulicos circunda metade do andar. Zibia e Silvana tm acesso exclusivo a ele das enormes salas que ocupam, uma vizinha  outra. E, se o tempo estiver frio para um passeio pelo espao verde, elas podem optar por ficar em uma terceira sala de pelo menos 80 metros quadrados no mesmo quarto andar. Iluminada por janeles de vidro com impecveis caixilhos brancos, ela tem sofs e poltronas, alm de uma pequena cozinha e uma imensa mesa onde a matriarca almoa todo dia, s 12h30. Gosto daqui, mas, para escrever, preciso estar na minha sala, diz Zibia.

O ritual para receber os livros de seu guia espiritual, Lucius, que nas ltimas cinco dcadas lhe transmitiu 26 romances, sendo S o Amor Consegue o 27,  o mesmo da dcada de 1950. Trs vezes por semana, por volta das 15h30, a mdium mais famosa do Brasil se senta agora diante do computador, diminui a luz, liga uma msica suave e l a ltima frase do romance em que deseja trabalhar  pelo menos trs so escritos simultaneamente. Como mgica, a voz de timbre familiar surge do silncio e a narrao recomea. Tenho conscincia absoluta do que est acontecendo, no  um transe, afirma a pioneira no uso do computador para psicografar no Brasil. Apenas sinto uma grande alegria, e meus pensamentos e raciocnios passam a ser geis e leves.

Nem sempre, porm, o contato com os espritos foi agradvel para a matriarca dos Gasparetto. A primeira experincia medinica, por exemplo, foi traumtica. Catlica, recm-casada e com um filho de colo, Zibia, ento com 22 anos, despertou uma noite sentindo um estranho formigamento pelo corpo. Ainda que incomodada, continuou na cama, na esperana de que aquilo passasse. O desconforto, porm, foi crescendo at que, subitamente, ela comeou a falar em alemo, lngua que desconhecia. Assustado, seu marido, Aldo, correu at a casa de uma vizinha em busca de ajuda. A senhora foi at a casa, fez uma prece e garantiu: aquilo era coisa de esprito. No dia seguinte meu marido foi at a Federao Esprita Brasileira (FEB) para comprar alguns livros sobre o assunto e, em pouco tempo, estvamos fazendo o evangelho do lar em casa, diz a autora.

O incmodo sumiu e um ano se passou at que, um dia, durante o Evangelho, Zibia comeou a sentir dor no brao. A mo, ento, passou a se mexer sozinha e o marido, mais adiantado nas leituras espritas, pegou papel e lpis e deu  mulher, que comeou a escrever. Eram coisas desconexas no comeo, mas depois passaram a fazer sentido, afirma a mdium. Com visitas ao centro esprita Seara do Mestre, no bairro do Ipiranga, a mediunidade foi afinando at que ela passou a ouvir uma voz masculina que parecia ditar uma narrativa. Curiosa para ver como acabava a histria, sentava para colocar o que ouvia no papel sempre que podia. J com dois filhos, porm, ela no conseguia se dedicar como gostaria. O primeiro livro, O Amor Venceu, levou cinco anos para ficar pronto, diz. Talvez como prmio pela determinao e compromisso, Lcius, que havia ditado o livro, mas ainda no havia se apresentado, finalmente se identificou, assinando a ltima pgina. Acho que ele se sentiu satisfeito com a parceria, afirma a autora.

At hoje, O Amor Venceu (1958) que, como no poderia deixar de ser, conta uma histria de amor, s que no Egito antigo, vendeu mais de meio milho de cpias. Foi, ao mesmo tempo, o livro que abriu o universo esprita para milhes de brasileiros, por tratar do tema de forma leve e romanceada, e colocou Zibia no mapa dos mundos medinico e editorial. Recheado de referncias a Allan Kardec, que sistematizou a doutrina, e ao espiritismo formal, o ttulo estabeleceu uma espcie de formato para boa parte dos romances da mdium at a segunda metade dos anos 1990  ricamente descritivos, longos, com enredos que se passam em tempos e pases distantes e versando sobre temas universais, como amor e dio, felicidade e sofrimento, justia e injustia e f e incredulidade. Entre 1958 e 1993, Zibia publicou dez romances nesse estilo, entre eles um de seus maiores best-sellers, Laos Eternos, de 1976, que j vendeu 825 mil cpias e cuja adaptao para o teatro, em cartaz desde 1991, atraiu mais de 200 mil espectadores.

Ainda que colhendo resultados expressivos at meados dos anos 1990 dentro do formato que criou na dcada de 1950, Zibia, em seus contatos com livreiros e j com experincia como dona de editora  em 1982, ela fundou a Editora Caminheiros , comeou a perceber que o perfil do leitor de obras espritas no Brasil estava mudando. Certo dia, ento, o esprito Lucius, segundo a autora, igualmente antenado, deu os primeiros sinais de que mudaria o estilo de suas narrativas. Mas foi s no romance de nmero 11, intitulado Pelas Portas do Corao, de 1995, que a mudana se concretizou. De leitura mais gil, apoiado em dilogos e quase sem referncias ao espiritismo ou a Allan Kardec e com trama contempornea, o ttulo marcou o incio de uma segunda, e mais voraz, etapa da produo literria da autora (leia quadro abaixo). Mudei por orientao dos espritos, afirma. Lucius me disse que precisava sair do rtulo esprita. Outra influncia, essa mais terrena, tambm contribuiu para viabilizar a guinada da mdium para o mercado. Na poca, Luiz Gasparetto, seu filho, ento com 46 anos, estava promovendo uma verdadeira revoluo no espiritismo nacional. Seus outros dois filhos, Pedro e Irineu, tambm so mdiuns. Pedro administra o curtume da famlia em Mogi das Cruzes e Irinei  msico e apresetador de rdio. Luiz, prtico e despojado como poucas lideranas da sisuda religio, j era referncia mundial no ramo da pintura medinica, tinha em seu currculo passagens por centros de referncia em estudo de terapias alternativas e vinha dando disputadas palestras motivacionais com discurso que misturava as bases do espiritismo com tcnicas de aprimoramento pessoal propaladas pelo movimento Nova Era.

Com uma viso completamente diferente do sucesso e, principalmente, do dinheiro, Luiz eliminou a noo de que o trabalho medinico devia ser gratuito, como pregava a Federao Esprita. E Zibia acolheu as orientaes do filho. Fechou a Associao Crist de Cultura Esprita Os Caminheiros, um centro esprita clssico fundado em 1969 pela famlia Gasparetto e mantido com dinheiro das vendas de seus livros, e passou a se dedicar exclusivamente  nascente Vida e Conscincia, editora fundada por ela com os filhos Luiz e Silvana. Nos dez anos seguintes, entre 1995 e 2005, produziu o que havia levado 37 anos para fazer quando ainda dividia seu tempo com as obrigaes e compromissos espritas.  curioso observar as mudanas na produo literria de Zibia depois das novidades apresentadas pelo Luiz, afirma Sandra Jacqueline Stoll, doutora em antropologia social pela Universidade de So Paulo (USP) e autora do livro Espiritismo  Brasileira (Edusp, 2003). Pendendo pesadamente para a auto-ajuda, mas ainda com a rubrica de Lucius, seus novos livros venderam como gua. O maior best-seller da carreira, Ningum  de Ningum, por exemplo, foi lanado em 2000 e vendeu 860 mil cpias. Ela passou a seguir um ritmo de lanamentos parecido com o dos grandes autores, diz Sandra. Com pelo menos um livro novo por ano, sempre em outubro, para pegar carona nas compras de Natal, ela chegou a emplacar dois ttulos simultaneamente na lista de mais vendidos do Pas, feito que s autores do quilate de Paulo Coelho haviam conseguido. 

Hoje no tenho religio, mas no me incomodo de ser chamada de espiritualista, diz Zibia (leia quadro acima). A tolerncia com a nova categorizao faz sentido. Para Reginaldo Prandi, professor do departamento de sociologia da USP e autor do livro Os Mortos e os Vivos (Ed. Trs Estrelas, 2012),  justamente no chamado espiritualismo que boa parte dos egressos do espiritismo, sedentos pela livre associao da doutrina ortodoxa da religio com novidades como a cromoterapia, a energizao de cristais e a autoajuda, vai se encaixar.  um grupo que rene quem no tem interesse em se conformar com conjuntos de regras, afirma.

Mas a guinada que levou os Gasparetto a se distanciarem dos preceitos balizadores do espiritismo no veio sem crticas. Para muitos, a mxima do dai de graa o que recebestes de graa foi relegada em nome da vaidade e do dinheiro. Muitos exigiam, inclusive, que Zibia abrisse mo dos direitos autorais dos livros que recebia dos espritos, como fez Chico Xavier, o maior psicgrafo brasileiro de todos os tempos. O Chico abriu mo dos direitos dos livros dele, mas uma vez chorou para mim, arrependido do que tinha feito, revela Zibia. 

 No d para negar que,  sua maneira, a autora medinica trabalha pela expanso do que ela acredita ser o caminho certo para o espiritualismo no Brasil. Alm do compromisso com a produo de livros, ela hoje tem um programa semanal de rdio e, no comeo do ano, lanou uma rede de televiso na internet. Batizada de Alma e Conscincia TV (ACTV), ela  administrada por seu neto Ren Gasparetto, tem quatro horas dirias de programao e, em breve, deve comear a produzir telenovelas baseadas nos livros da matriarca.  um projeto que comeou h um ano e meio e ainda d prejuzo, mas  uma aposta nossa, diz Silvana. Mais uma frente que se abre para a famlia que, liderada por Zibia Gasparetto, construiu um imprio esprita que no para de crescer.


5. UM JEITO DIFERENTE DE TORCER
Fim da arquibancada, restries  movimentao, maior proximidade do campo e valor alto dos ingressos iro mudar o perfil e o comportamento da torcida nos estdios brasileiros
Tamara Menezes

A imagem da torcida desfraldando enormes bandeiras em meio a coros em animados batuques nos estdios no poder ser vista na Copa das Confederaes que comea em 15 de junho. As rgidas regras de comportamento estabelecidas pela Fifa para as arenas esportivas dos seis Estados-sede, e que valero tambm para os 12 da Copa do Mundo de 2014, tiraro muito da empolgao  e at do charme  do pblico brasileiro. Criamos um estdio para uma nova cultura de futebol. O torcedor vai se moldar, acredita o engenheiro caro Moreno, presidente da Empresa de Obras Pblicas do Estado do Rio de Janeiro, que comandou a remodelao do Maracan.

 As exigncias arquitetnicas iro criar um novo jeito de torcer no Brasil e sero um legado definitivo dos dois eventos. O espectador estar muito mais prximo dos jogadores  no Maracan, agora, 14 metros os separam e, no brasiliense Man Garrincha, apenas 7,5 metros. Com o fim da arquibancada, ele no poder ficar trocando de lugar nos degraus, pois ter de ocupar somente o seu assento numerado. O objetivo principal dessas alteraes  a segurana. Em 1989, quando 96 torcedores morreram durante um jogo na Inglaterra, as mudanas comearam a ser pensadas. Todos os obstculos entre arquibancada e gramado, como alambrados e fossos, foram eliminados para que a rota pudesse ser usada como opo de escape em caso de tumulto na multido. Essa proximidade do campo demandar um comportamento civilizado do torcedor e maior efetivo policial para garantir a integridade de quem vai ao estdio.

As regras de conduta s valem para os jogos da Fifa, mas so muitas. A entidade probe que o espectador fique de p, obstrua a viso dos outros, incomode jogadores e grite xingamentos. Mesmo manifestaes efusivas de torcedores  como fazem os fluminenses, que jogam p branco para o ar no incio das partidas, ou os corintianos, conhecidos pelo show de papel picado  no podero acontecer nos jogos oficiais da entidade. As bandeiras sem mastro no devem ultrapassar o tamanho de 2 m x 1,5 m e com mastro s sero admitidas as de plstico flexvel de at 1 cm de dimetro e no mximo um metro. H, ainda, obstculos fsicos: barras de ferro foram instaladas para impedir a movimentao entre algumas fileiras, de modo a tentar organizar uma eventual confuso.

 Para a torcida brasileira, entretanto, o maior golpe  a proibio de instrumentos musicais. Nossa forma de torcer sempre foi carnavalizada, com samba, msica. Esse veto  uma barbrie, lamenta Marcos Alvito, historiador especializado em futebol, da Universidade Federal Fluminense (UFF). De maneira artificial, a Fifa tentou emplacar a caxirola, instrumento inventado sob encomenda pelo msico Carlinhos Brown para ser usado pela torcida nos dois eventos. Mas ela terminou proibida na Copa das Confederaes por ter sido usada como arma ao ser lanada, em massa, no gramado durante um jogo na Bahia, em abril.

Outra mudana significativa  no perfil do torcedor. H uma elitizao imposta pelo aumento dos preos dos ingressos. Com menos plateia devido  colocao de cadeiras em substituio s arquibancadas, a entrada ficou mais cara, para garantir o lucro de clubes e federaes. Em dez anos, o valor do tquete mais barato subiu 300% no Pas, contra uma inflao de 78% no perodo, segundo Fernando Ferreira, economista da Pluri Consultoria. O jogo entre Santos e Flamengo, realizado em Braslia no domingo 26, arrecadou R$ 6,9 milhes, valor muito acima do que costuma render a bilheteria. A partida entre Brasil e Inglaterra no domingo 2, no Maracan, deve auferir R$ 10 milhes. O custo elevado de um programa que sempre foi barato no Brasil est afugentando os torcedores. A mdia de pblico no Brasileiro em 2012 foi de 12,9 mil pessoas por jogo. O ex-tcnico ingls Alex Ferguson, atualmente dirigente do Manchester United, comparou o silncio da torcida a um cemitrio, o que ilustra o clima nos arenas asspticas da atualidade. Assim  o estdio que oferece conforto sem emoo, diz o historiador Marcos Alvito. Resta torcer para que isso no acontea tambm no Brasil.
